"Sede francos convosco mesmos; travai conhecimento com o vosso caráter, mas não o estragueis, porque as crianças mimadas muitas vezes se tornam más e aqueles que se mimam em excesso são os primeiros a sentir os efeitos. Voltai um pouco o alforje onde colocais os vossos e os defeitos alheios. Ponde os vossos à frente e os dos outros para trás e tende cuidado para não baixar a cabeça quando tiverdes vossa carga à frente."
sexta-feira, 4 de setembro de 2020
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
BASTA CONHECER O ESPIRITISMO PARA SE TORNAR UMA PESSOA MELHOR?
BASTA CONHECER O ESPIRITISMO PARA SE TORNAR UMA PESSOA MELHOR?
Para o espírita se tornar alguém melhor, será suficiente frequentar ou, até mesmo, colaborar numa casa espírita?
Certamente que não, pois a vida desenrola-se todos os dias e é nas situações do dia-a-dia que se percebe quem verdadeiramente somos.
Bastar-lhe-á fazer leituras de obras doutrinárias?
O conhecimento, só por si, não torna ninguém melhor. No caso do Espiritismo, há que aplicá-lo a si mesmo.
Ser expositor espírita será sinónimo de alguém que se esforça por pautar a sua conduta pelos ensinamentos do Espiritismo?
O expositor espírita prepara um tema e transmite-o. Por princípio, ele é o primeiro beneficiado com o seu conteúdo, pois foi necessário estudá-lo, mas isso, só por si, não é sinónimo de já se deixar conduzir pelos princípios que divulga, por muito mérito que tenha no trabalho de exposição.
Diz-nos "O Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, claramente:
"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más."
Posto isto, o verdadeiro espírita é falível, uma vez que todos o somos, no entanto, os seus atos deveriam tender para se aproximarem e para se inspirarem nos ensinamentos a que teve acesso e que abraçou. Isto é coerência.
Na obra "Contos desta e doutra vida", de Humberto de Campos e psicografada por Francisco Cândido Xavier, conhecemos Laurindo Matoso. A sua história mostra-nos a diferença entre um espírita apenas "de nome" e um espírita na verdadeira acepção da palavra, tal como indica a definição de Allan Kardec, atrás referida.
"Laurindo Matoso sentia-se no auge da exaltação doutrinária. Iniciava os comentários de uma trintena de noites, que seriam consagradas a estudos sobre o dinheiro à face do Cristianismo, e exprimia-se, severo. Lembrava a história dos grandes sovinas, relacionava os desastres morais surgidos da finança inconveniente... ― O ouro, meus irmãos ― pontificava, solene ―, é o pai de quase todas as calamidades da Terra. Abre a vala da prostituição, gera a delinqüência, incentiva a loucura e corrompe o caráter... Onde apareça a miséria, procurai, por perto, a fortuna. É preciso temer a posse e extinguir a avareza. O dinheiro destrói o amor e a felicidade, o dinheiro enche cadeias e manicômios... A assembléia escutava, escutava... Entretanto, o exame do assunto permitia o debate fraterno e, porque muitos companheiros de raciocínio acordado não podiam esposar plenamente as teses ouvidas, Matoso viu-se para logo encurralado em perguntas diretas. ― Mas você não considera o dinheiro como recurso da vida? ― ponderava Montes, o irmão mais velho da turma. ― A direção é que vale. Água governada faz a represa, a represa sustenta a usina, a usina cria trabalho e o trabalho é a felicidade de muita gente. ― Ora, ora! ― gritava Laurindo, esmurrando a mesa ― lá vem você, o filósofo espírita. ― Como assim? ― sorriu o ancião prestimoso. E Laurindo: ― Qualquer dinheiro desnecessário a quem o possua é porta aberta à demência. ― Ouça, matoso ― interferiu Dona Clélia ―, imagine-se você mesmo, num catre de provação, recolhendo o amparo amoedado de algum amigo. É impossível que você amaldiçoe o auxílio espontâneo... ― A assistência é tarefa para Governos ― tergiversou o orador. ― Sim ― concordou a interlocutora ―, mas, por vezes, a representação dos Governos, embora respeitável, custa muito a chegar. ― E o dinheiro generoso que pode ajudar nos casos de família? ― acentuou Dona Zulma. ― naturalmente, o senhor não tem, como nos acontece, um filho acusado por um desfalque no Banco. A quantia que nos foi emprestada, para salvar-lhe o nome, funcionou como bênção. ― Nada disso ― protestou Laurindo, excitado. ― Não houvesse o dinheiro e não surgiriam viciações. A paga dourada é que faz os defraudadores. Estudei a questão quanto pude. Em todas as civilizações, o dinheiro é responsável por mais da metade dos crimes... A preleção seguia animada, com apartes ardentes, quando o telefone chamou Laurindo em pessoa. O aviso procedia do recinto doméstico e, por isso, o monitor não conseguiu esquivar-se. Ao telefone processou-se o seguinte diálogo: ― É você, Laurindo? ― Sim, sim. ― Olhe ― informava a esposa distante ―, um portador chegou agora... ― Que há? ― inquiriu Matoso, austero e preocupado. ― Meu avô morreu e deixou-nos todos os bens... A fazenda, os depósitos, as apólices... Venha!... Precisamos combinar tudo. É muito problema por decidir, mas creio que a herança nos libertará de todo cuidado material para o resto da vida... ― Bem, filha ― e a voz do Matoso adocicou-se, de inesperado ―, vou já... Logo após, algo atarantado, pediu desculpas, alegando que precisava sair. ― E o final da palestra? ― disse Osvaldo Moura, um amigo que acompanhava as instruções, empunhando notas. ― Temos o mês inteiro para discutir o temário ― explicou o orador. ― O dinheiro é o flagelo dos homens. É imperioso guerreá-lo sem tréguas. Continuarei amanhã... Os dias se passaram e, por mais solicitado ao regresso, Laurindo nunca mais voltou..."
O Espiritismo não pode responder por aqueles que se deixam corromper pelo mundo, ainda que falem em seu nome, nem pelos que preferem conhecer a Doutrina apenas em teoria, não a aplicando nas suas vidas, nem mesmo por aqueles que usam as oportunidades de trabalho numa casa espírita, como mero exercício de vaidade.
Não, de nada disto o Espiritismo é responsável.
"O Espiritismo não é solidário com aqueles a quem apraza dizerem-se espíritas, do mesmo modo que a Medicina não o é com os que a exploram, nem a sã religião com os abusos e até crimes que se cometam em seu nome. Ele não reconhece como seus adeptos senão os que lhe praticam os ensinos, isto é, que trabalham por melhorar-se moralmente, esforçando-se por vencer os maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos, mais brandos, mais humildes, mais caridosos para com o próximo, mais moderados em tudo, porque é essa a característica do verdadeiro espírita."
"Obras Póstumas", Allan Kardec
Não nos comprometamos moralmente. Sejamos verdadeiros espíritas.
Em ambos os planos da vida, muitos observam os nossos atos, também por sermos espíritas. Não nos é pedida perfeição mas já temos o conhecimento suficiente para nos esforçarmos para sermos melhores.
Graças à nossa conduta, muitos são aqueles que poderão aproximar-se do Espiritismo, salvando a sua encarnação. Todavia, também muitos outros poderão afastar-se, por ainda não saberem distinguir o espírita do Espiritismo, pela incoerência entre quem queremos parecer e quem somos, de facto.
"Espíritas antes de aconselhar e ensinar..."
"Espíritas antes de aconselhar e ensinar, começai logo por iluminar os menores refolhos de vossa alma."
"Revista Espírita", Allan Kardec - Fevereiro de 1867
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
HÁ FÉRIAS DO ESPIRITISMO?
HÁ FÉRIAS DO ESPIRITISMO?
Como devem os espíritas viver os períodos em que, por alguma razão, não é possível frequentar a casa espírita?
Será que uma pausa nas atividades significa igual pausa em hábitos e condutas que já deveriam fazer parte das suas necessidades diárias? Sim, isso mesmo, escrevemos "necessidades", pois somos nós, espíritas que precisamos do Espiritismo e não o contrário.
Ou será que o Espiritismo só está nos nossos dias quando a ida à casa espírita faz parte de uma rotina?
Como temos vivido o Espiritismo, neste tempo de pandemia, com as atividades das casas espíritas interrompidas? Será que basta assistir a palestras online?
Para nossa reflexão a este respeito, transcrevemos um artigo publicado por Allan Kardec, na "Revista Espírita" de 1862 e que cada um de nós observe em si mesmo o que tem feito.
"Férias da sociedade espírita de Paris"
"Sociedade espírita de Paris, 1º de Agosto de 1862 - Médium: Sr. E. Vezy)"
"Ides, pois, separar-vos por algum tempo, mas os bons Espíritos estarão sempre com os que lhes pedirem auxílio e apoio.
Se cada um de vós deixa a mesa do mestre, não é apenas para exercício ou repouso, mas ainda para servir, onde quer que estiverdes, à grande causa humanitária, sob cuja bandeira viestes procurar abrigo.
Bem compreendeis que para o espírita fervoroso não há horas designadas para o estudo. Toda a sua vida não é mais que uma hora, e ainda demasiado curta para o trabalho a que se dedica: o desenvolvimento intelectual das raças humanas!...
Os galhos não se destacam do tronco porque deste se afastam. Ao contrário, dão lugar a novos impulsos que os unem e os solidarizam.
Aproveitai estas férias que vão espalhar-vos, para vos tornardes ainda mais fervorosos, a exemplo dos apóstolos do Cristo. Saí deste cenáculo, fortes e corajosos. Que vossa fé e as vossas boas obras reúnam em torno de vós milhares de crentes, que abençoarão a luz que espalhareis em vosso redor.
Coragem! Coragem! No dia do encontro, quando a auriflama do Espiritismo vos chamar ao combate e se desdobrar sobre vossas cabeças, que cada um tenha em volta de si os adeptos que houver formado sob sua bandeira, e os bons Espíritos dirão o seu número e o levarão a Deus!
Não durmais, pois, espíritas, à hora da sesta. Velai e orai! Eu já vos disse, e outras vozes vo-lo repetirão: Soa o relógio dos séculos e uma vibração retine. Ela chama os que se acham na noite, e infelizes serão os que não a quiserem escutar!
Ó espíritas! Ide, despertai os adormecidos e dizei-lhes que vão ser surpreendidos pelas vagas do mar que sobe em rugidos surdos e terríveis. Ide dizerlhes que escolham um lugar mais iluminado e mais sólido, porque eis que os astros declinam e a Natureza inteira se move, treme e se agita!...
Mas, após as trevas, eis a luz, e aqueles que não tiverem querido ver e ouvir imigrarão naquela hora para mundos inferiores, a fim de expiar e esperar longamente, mui longamente, os novos astros que devem elevar-se e esclarecê-los. E o tempo lhes parecerá a eternidade, pois não lobrigarão o término de suas penas, até o dia em que começarem a crer e compreender.
Espíritas, não mais vos chamarei crianças, mas homens, homens valentes e corajosos! Soldados da nova fé, combatei valentemente. Armai o braço com a lança da caridade e cobri o corpo com o escudo do amor. Entrai na liça! Alerta! Alerta! Calcai aos pés o erro e a mentira e estendei a mão aos que vos perguntarem: “Onde está a luz?”
Dizei-lhes que os que marcham guiados pela estrela do Espiritismo não são pusilânimes; que se não deslumbrem com miragens e não aceitem como leis senão aquilo que ordena a razão fria e sã; que a caridade é a sua divisa e que não se despojem por seus irmãos senão em nome da solidariedade universal e nunca para ganharem um paraíso, que sabem muito bem que não podem possuir senão quando tiverem expiado o bastante!... Que conheçam Deus e que, antes de tudo, saibam que ele é imutável em sua justiça, e que, consequentemente, não pode perdoar uma vida de faltas acumuladas, por um segundo de arrependimento, como não pode punir uma hora de sacrilégio, por uma eternidade de suplício!...
Sim, espíritas, contai os anos de arrependimento pelo número das estrelas, mas sabei que a idade de ouro virá para aquele que tiver sabido contá-las!...
Ide, pois, trabalhadores e soldados, e que cada um volte com a pedra ou o seixo que deve auxiliar na construção do novo edifício. Eu vos digo, em verdade, que desta vez não mais tereis que temer a confusão, mesmo querendo elevar ao Céu a torre que o coroará. Ao contrário, Deus estenderá a sua mão no vosso caminho, a fim de vos abrigar das tempestades.
Eis a segunda hora do dia. Eis os servidores que vêm de novo, da parte do Mestre, procurar trabalhadores. Vós que estais desocupados, vinde, e não espereis a última hora!..."
SANTO AGOSTINHO
"Digo a todos os espíritas..."
"Digo a todos os espíritas: continuai a semear a ideia; espalhai-a pela doçura e pela persuasão e deixai aos nossos antagonistas o monopólio da violência e da acrimónia a que só se recorre quando não se é bastante forte pelo raciocínio."
"Revista Espírita", Allan Kardec - Maio de 1863
terça-feira, 1 de setembro de 2020
É CULPADO AQUELE QUE VOLUNTARIAMENTE ANTECIPA A MORTE?
É CULPADO AQUELE QUE VOLUNTARIAMENTE ANTECIPA A MORTE?
O que buscam os que pretendem antecipar a morte? Certamente abreviar dores ou sofrimentos, sejam eles físicos, morais, ou ambos. A Doutrina Espírita esclarece-nos acerca das implicações de atos desta natureza.
“953. Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?”
“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência.”
“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec
Só a Deus compete dar e retirar a vida no corpo físico pois este último é-nos emprestado, temporariamente, para ser instrumento do nosso Espírito, em cada encarnação.
Por outro lado, muitos não optam pela eutanásia, porém, abandonam-se moralmente.
Podemos não ver qualquer significado mas cada dia de vida é uma oportunidade para a nossa ascensão, independentemente das circunstâncias. Em cada dia, Deus espera que façamos o melhor que esteja ao nosso alcance, principalmente, interiormente. Há situações que não encontram justificação nesta existência mas, algures no tempo, compreenderemos a necessidade daquela época dolorosa nas nossas vidas que, bem vivida, nos ajudou a libertarmo-nos de mais uma parcela de erros do homem velho, que ainda carregamos.
“E quem poderá estar certo de que, mau grado às aparências, esse termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?”
“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec
Existem muitos casos de situações sem melhoria aparente ou, até, enfermidades que não vislumbravam dias melhores, mas assim não acontece e uma lufada de esperança inunda aquele que nada de bom aguardava, através de melhorias significativas no seu estado.
Deus tem muitos caminhos que não conhecemos e quando, na sua perfeição, entende, pode mudar uma história, radicalmente.
A nossa visão estreita, habitualmente, não nos ajuda a refletir, principalmente, quando se trata de momentos graves na nossa existência. Ainda assim, quantos reencontros, equívocos, situações onde a paz é refeita, situações de provas vencidas acontecem graças ao cumprimento do tempo que Deus entende, no que diz respeito ao prolongamento da vida de alguém, que sofre e que para os nossos olhos esse sofrimento é desnecessário?
Quantos corações ficam em paz, graças a esses momentos!
Reflitamos a este respeito e sejamos facilitadores dos desígnios de Deus!
"A Doutrina Espírita..."
"A Doutrina Espírita é o mais poderoso elemento de moralização, por se dirigir simultaneamente ao coração, à inteligência e ao interesse pessoal bem compreendido."
"Obras Póstumas", Allan Kardec
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